Polícia Civil de Goiás cumpriu mandados de prisão contra suspeitos de corrupção em contrato de R$ 27,8 milhões da Goinfra. Ex-presidente do órgão está preso.
O governador Ronaldo Caiado tem se afundado na própria lama, e cada vez mais rápido. Ao longo de seu segundo mandato, o nome do mandatário tem presença constante nos noticiários policiais.
O mais recente escândalo veio à tona nesta terça-feira, 28 de janeiro, quando a Polícia Civil de Goiás deflagrou a operação “Obra Simulada”. A ação cumpriu mandados de prisão contra suspeitos de corrupção em contrato de R$ 27,8 milhões entre a Agência Goiana de Infraestrutura e Transporte (Goinfra) e uma empresa privada do Distrito Federal, para reforma de prédios públicos em Goiás. Conforme a investigação, o contrato firmado entre 2023 e 2024 gerou pagamentos indevidos que podem ter causado um prejuízo de R$ 10,4 milhões aos cofres públicos. Ao todo, são 114 mandados de prisão, bloqueio de bens e outras restrições.
Os mandados foram cumpridos em Goiânia, Anápolis e no Distrito Federal. O ex-presidente da Goinfra, Lucas Vissotto, foi preso. Ex-integrantes da diretoria da Goinfra, gestores e fiscais do contrato e empresários estão entre os investigados.
Ex-presidente da Goinfra, Lucas Vissotto,
foi preso durante a operação “Obra Simulada”.
A operação “Obra Simulada” é mais um episódio da trajetória de escândalos que envolvem o governo Ronaldo Caiado, direta ou indiretamente.
Crime sem castigo
O mais obscuro e grave caso diz respeito a Jorge Caiado, primo do governador de Goiás, acusado de participação no homicídio de um ex-coordenador da campanha de Ronaldo Caiado em 2018, Fábio Alves Escobar Cavalcante. Em 2019, a vítima havia feito denúncias contra Carlos César Savastano de Toledo, um importante aliado político do governador em Anápolis, o que resultou em seu assassinato no dia 23 de junho de 2021.
Fábio Escobar, ex-coordenador da campanha de
Ronaldo Caiado em Anápolis, morto a tiros em junho de 2021.
A trama vai além, e soma oito assassinatos, um suposto suicídio, dez policiais militares presos e um ponto de interrogação sobre o motivo e o mandante do crime. A busca por justiça só se tornou possível com a Operação Terasac, da Polícia Civil, dois anos depois do assassinato de Escobar. A investigação detalha que Jorge Luiz Ramos Caiado “concorreu de forma eficaz para o crime de homicídio contra a vítima Fábio Alves Escobar Cavalcante, eis que prestou apoio moral ao mentor Carlos César Savastano de Toledo, incentivando e reforçando os seus planos de matar a vítima”.
Conforme os promotores do caso, Jorge Caiado se valeu de seu prestígio na Secretaria de Segurança Pública de Goiás e proximidade com policiais militares para atrair aliados para assassinar Fábio Escobar.
Caiado é condenado por abuso de poder político
TRE-GO declarou que o governador Ronaldo Caiado está inelegível por oito anos, por abuso de poder político durante as eleições municipais de 2024.
No fim de 2024, o Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) declarou que o governador Ronaldo Caiado está inelegível por oito anos, por abuso de poder político nas eleições municipais de 2024. A Justiça Eleitoral de Goiás também anulou o registro da chapa do prefeito eleito de Goiânia, Sandro Mabel, que recebeu o apoio de Caiado na disputa pelo comando da capital. Mesmo assim, a decisão não interfere no atual mandato de Caiado, que se estende até 2026.
Segundo a juíza Maria Umbelina Zorzetti, Ronaldo Caiado utilizou o Palácio das Esmeraldas, para organizar eventos de campanha em apoio a Sandro Mabel. Os encontros ocorreram nos dias 7 e 9 de outubro, após o primeiro turno, com a participação de vereadores eleitos e lideranças políticas locais. O Ministério Público de Goiás (MPGO) também manifestou apoio à condenação. A defesa de Caiado recorreu da decisão.
Família Caiado carimba ‘lista suja’ do trabalho escravo
A relação da família Caiado com o escravagismo parece não ter findado com a Lei Áurea. Em 2013, quatro carvoeiros foram libertados após serem submetidos a condições degradantes e jornadas exaustivas. Caso foi o segundo envolvendo família de Ronaldo Caiado.
Trabalhadores resgatados produziam carvão sem nenhum equipamento de proteção, enfiados em fornos de barro de alta temperatura de chinelo e bermuda. Foto: SRTE-GO.
À época, o pecuarista Antônio Ramos Caiado Filho, tio do atual governador, foi incluído pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) na “lista suja” de empregadores flagrados com trabalho escravo. Ele foi considerado responsável por submeter quatro pessoas a condições degradantes e a jornadas exaustivas na produção de carvão em sua fazenda em Nova Crixás, a 400 km de Goiânia. Os resgatados afirmaram que foram obrigados a cumprir jornadas de até 19 horas seguidas, “das 2h às 21h”, nas palavras de um dos trabalhadores.
Os carvoeiros produziam carvão vegetal em 12 fornos, sem qualquer equipamento de proteção como máscaras ou luvas. Eles trabalhavam vestindo chinelos e bermudas, sujeitos a contato direto com o pó e a fumaça da queima do carvão. Os resgatados dormiam em alojamentos precários no local.
O pecuarista afirmou que a área havia sido cedida em regime de comodato a um terceiro, e que a madeira resulta de árvores que pegaram fogo e foram vendidas por R$ 10 mil para o carvoeiro. Não havia licença ambiental para a extração de madeira na área.
Em 2010, 26 trabalhadores foram resgatados em fazenda de Emival Ramos Caiado, primo do deputado e irmão de Antônio. Na época, o atual governador Ronaldo Caiado era deputado federal e votou contra a PEC do Trabalho Escravo, em 2012, que permite a expropriação de imóveis rurais e urbanos onde houver exploração de trabalho escravo. A PEC foi aprovada. Hoje, este crime está previsto no Artigo 149 do Código Penal, que inclui a caracterização de escravidão por condições degradantes e jornadas exaustivas.
Grupo mantinha 12 fornos acesos para queimar madeira de floresta devastada dentro da propriedade. Foto: SRTE-GO.






