Superação, realização e sonhos marcam a trajetória de policiais civis

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Renata Martins Mesquita, de 33 anos é portadora de osteogênese imperfeita, também conhecida como a doença dos ossos de vidro. Quando pequena, o cuidado com ela sempre teve de ser minucioso, pois qualquer esforço ou queda, gerava fraturas. Durante sua infância, as fraturas eram recorrentes no fêmur. Felizmente, elas pararam quando Renata completou seus 11 anos de idade. “Até os 10 anos eu andava distâncias curtas. Após a última fratura, aos 11 anos, eu passei a usar cadeira de rodas. O meu médico recomendou que eu não andasse para que não fizesse tanto esforço, pois eu só andaria pequenos trajetos e ainda correria o risco de ter novas fraturas”, relembra.

A jovem se formou em Sistemas de Informação pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) de Porangatu, no norte do Estado, e foi no último ano da faculdade que um amigo, filho de um policial civil, lhe despertou o interesse para o concurso público. “Em 2008 saiu o concurso da Polícia Civil e esse meu colega me falou para concorrer à vaga de escrivão. Foi aí que eu comprei as apostilas para estudar e me dediquei”, conta.

E os obstáculos na vida de Renata não se limitaram apenas no âmbito físico. Tomar posse no concurso foi um trajeto longo e que requereu superar as dificuldades. “Tive problemas com a banca responsável pelo concurso, pois não aceitaram meus laudos, me mostravam inapta. Mas aí entrei com mandado de segurança e tomei posse em 2010”, pontua.

Em seus sonhos, Renata espera um país melhor, tanto em políticas públicas quanto em conscientização. “A sociedade precisa estar mais preparada para receber o portador de necessidades especiais. Na minha cidade, em alguns locais, sequer temos rampas de acesso para entrar nos estabelecimentos, as calçadas nem sempre são niveladas, muitos lugares não têm banheiros acessíveis. O ponto de partida para mudar tudo isso é termos um país mais inclusivo, principalmente quando falamos nas oportunidades de qualificação profissional e de trabalho para nós”, conclui.

O escrivão de polícia de 1ª Classe Márcio Gonçalves também teve que recorrer à Justiça para entrar para a Academia da Policia Civil, em 2004, quando passou no concurso. “A comissão queria que eu corresse 2,1 mil metros dentro de prazo especifico, o que é impossível para uma pessoa de muleta”, lembra Marcinho, como é conhecido em Cromínia, onde trabalha e nasceu.

Filho de um lavrador e de uma dona de casa, Márcio foi o único dos três filhos do casal a contrair poliomielite quando tinha 1 ano de idade. A doença comprometeu a perna direita e ele só aprendeu a andar com cinco anos e até hoje usa muleta para se locomover.
Mas a deficiência não impediu suas conquistas: fez faculdade de Letras, em Morrinhos, e passou no primeiro concurso em 1997, na área da Educação. Depois, trabalhou como professor também concursado por cinco anos até se tornar policial civil.

Conquistas cujo valor se multiplica em face a dificuldade de alcançá-las. “O deficiente físico tem uma luta diária. A partir do momento em que você acorda e coloca o pé no chão, utiliza de outros recursos para andar ou ter acesso a outros locais é uma luta constante”, afirma. Além dos preconceitos dos quais é vítima. “Já sofri preconceitos e fui visto incapaz. Mas eu sempre levei de cabeça erguida”.

Uma situação diferente da que vive na Polícia Civil, onde Marcinho relata que foi muito bem aceito, nunca sofreu preconceito ou discriminação por parte dos colegas nos 15 anos de trabalho. Ele desempenha suas funções sozinho na delegacia desde que foi nomeado.

“Me considero uma pessoa realizada e, apesar de todos os obstáculos, eu sempre superei de cabeça erguida. Tenho um orgulho muito grande de fazer parte dessa instituição e o que me motiva a enfrentar as dificuldades é saber que hoje eu sou um policial civil e presto um serviço de excelência para minha comunidade”.

E esse é o conselho que deixa para as pessoas com deficiência, “não aceitar as barreiras que a sociedade impõe e não se deixe abater; levantar a cabeça e seguir em frente”.

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